“Entre temperos, música e silêncio: o que uma cozinha na Itália me ensinou sobre viajar”

Eu estava na Itália, já há alguns dias, quando decidi fazer algo diferente.

Não queria mais igrejas, nem filas, nem listas do que “precisava ver”.
Queria viver alguma coisa.

Foi assim que surgiu a ideia de fazer uma aula de culinária — algo que, com o tempo, passou a fazer parte das minhas viagens. Já vivi experiências assim em diferentes lugares do mundo, mas cada uma delas carrega algo único.

Naquele momento, encontrei uma proposta que me chamou atenção: uma experiência em uma pequena cidade nos arredores de Roma, chamada Zagarolo.

E foi ali que tudo aconteceu.

A casa era exatamente como se imagina uma casa italiana — mas com algo a mais.
Era o lar de uma arquiteta que decidiu abrir suas portas para receber viajantes, transformando sua própria casa em um espaço de encontro, troca e experiência.

Fui recebida por ela — Claudia — com uma naturalidade que não se encontra em hotéis.

Nada era ensaiado.
Nada era turístico demais.

Era real.

Mas o que tornou aquele momento ainda mais especial foi algo inesperado.

Seu marido, ao descobrir que éramos brasileiros, sentou-se ao teclado e começou a tocar Bossa Nova.

Assim, sem aviso.

E, de repente, estávamos ali — em uma cozinha italiana, cortando temperos frescos, enquanto a nossa música preenchia o ambiente.

Há algo profundamente simbólico nisso.

Enquanto aprendíamos técnicas de culinária, entre ervas, massas e gestos simples, eu percebia que aquela experiência não era sobre comida.

Era sobre conexão.

A casa refletia o olhar de quem a criou: elegante, acolhedora, cheia de detalhes.
O jardim se abria ao fundo, revelando um pergolado coberto por parreiras — desses que parecem existir apenas em filmes, mas que ali era parte do cotidiano.

Depois de cozinhar, sentamo-nos à mesa.

Comemos o que havíamos preparado.
Sem pressa.
Sem distrações.

E harmonizamos tudo com um vinho produzido ali mesmo, na propriedade.

Tudo era simples.
E, ao mesmo tempo, absolutamente memorável.

Foi ali que algo fez sentido para mim.

Viajar não é sobre o que você vê.

É sobre o que você vive — e, principalmente, com quem você vive.

Durante muito tempo, eu acreditei que uma boa viagem era aquela em que conseguimos conhecer o máximo possível.

Hoje, eu penso diferente.

Uma viagem inesquecível não é aquela que te leva a muitos lugares.
É aquela que te permite realmente estar em um.

Quando desenho um roteiro, não penso apenas nos destinos.

Penso nos encontros.
Nos ritmos.
Nos momentos que não estão nos guias.

Porque são esses momentos — quase invisíveis — que ficam.

Aquela cozinha em Zagarolo não estava em nenhuma lista imperdível.

Mas ficou em mim.

E talvez seja isso que define uma boa viagem:

Não aquilo que você mostra quando volta,
mas aquilo que continua com você.